September 7, 2021
From Center For Stateless Society
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E ainda assim vocĂȘ usa essas plataformas malĂ­gnas da Big Tech. Que curioso!

De Kevin Carson. Artigo original: And Yet You Use Those Evil Big Tech Platforms. Curious!, de 16 de setembro 2020. Traduzido para o portuguĂȘs por Estefano Enrico.

É comum que “libertĂĄrios” de direita ataquem — com alguma justificativa — a estupidez daqueles que equiparam a oposição a uma lei ou agĂȘncia governamental com a oposição a algum valor ou objetivo em seu nome. Querer abolir o departamento de educação, por exemplo, nĂŁo significa que vocĂȘ Ă© contra a educação. No entanto, “libertĂĄrios” de direita sĂŁo responsĂĄveis por uma falĂĄcia um tanto relacionada, como veremos em breve.

Outra falĂĄcia similar da qual os apologistas prĂł-capitalismo sĂŁo desproporcionalmente responsĂĄveis Ă© exemplificada pela rĂ©plica das mĂ­dias sociais: “anti-capitalistas com iPhones kkkk.” Matt Bors zombou dessa falĂĄcia com um cartum amplamente divulgado no qual um camponĂȘs diz: “nĂłs deverĂ­amos melhorar a sociedade um pouco” — ao que um troll de direita responde: “E ainda assim vocĂȘ participa da sociedade. Que curioso! Eu sou muito inteligente.”1

Fica implĂ­cito na resposta do troll a suposição de que se nĂłs desejamos uma gama de benefĂ­cios disponĂ­veis no momento, entĂŁo tambĂ©m desejamos necessariamente os atuais arranjos institucionais. Mas esse argumento impediria qualquer crĂ­tica sobre estruturas sociais ou instituiçÔes em qualquer sociedade, jĂĄ que o Ășnico meio de receber benefĂ­cios em qualquer sociedade Ă© atravĂ©s dos mecanismos sociais que os entregam. Um defensor da economia planejada soviĂ©tica talvez tenha desafiado um advogado do livre mercado em termos idĂȘnticos: “E ainda assim, vocĂȘ vive numa casa, veste roupas, tem mobĂ­lia, utensĂ­lios e etc., tudo o que foi produzido em fĂĄbricas estatais responsĂĄveis pelos setores industriais e de acordo com o plano quinquenal. Que curioso!”

Elizabeth Nolan Brown2, em dois artigos no site Reason postados a alguns dias, demonstra ambas falácias da melhor maneira possível. Em “Democrats Hate Facebook. Republicans Want to Ban TikTok.The Bipartisan Backlash Against Big Tech Is Here and It’s a Disaster” (13 de agosto), ela diz:

Pessoas ordinĂĄrias começaram a ameaçar a internet e as oportunidades que ela tem criado, que chatice. Mesmo que os produtos deles tenham transformado quase todo aspecto da vida cotidiana, as grandes companhias de tecnologia tĂȘm sido expostas, cada vez mais, Ă  percepção negativa do pĂșblico e ataques polĂ­ticos contĂ­nuos.

Ela contrasta esse sentimento a um breve perĂ­odo na primavera onde os norte-americanos pareciam apreciar o que a indĂșstria fez por eles.


À medida que os EUA fechavam e ficavam em casa como resposta ao coronavírus, parecia que talvez as empresas de tecnologia norte-americanas estivessem fazendo um regresso de reputação.

Com todos presos dentro de casa, a Big Tech proveu uma “corda salva-vidas”, conectando americanos Ă  comida, entretenimento, trabalho e uns aos outros. Mas a trĂ©gua temporĂĄria dos EUA com a Big Tech nĂŁo durou muito. Depois de quase cinco meses na pandemia, parece que qualquer benevolĂȘncia recĂ©m-descoberta e conquistada pelo vale do silĂ­cio jĂĄ “se queimou”.

“Havia uma pequena janela do tempo onde todos foram gratos que a tecnologia nos permitia continuar a funcionar como sociedade, apesar da nossa incapacidade de união em espaços físicos”, diz o professor em direito da Universidade de Santa Clara, Eric Goldman, no site Reason. “E ainda assim essa gratidão se foi tão rapidamente. Todos simplesmente voltaram a odiar empresas de internet e esqueceram-se de todas as grandes coisas de que nos beneficiamos atualmente.”



Mesmo que as grandes companhias de tecnologia tenham beneficiado pessoas ordinĂĄrias de vĂĄrias maneiras, uma reação polĂ­tica ao tamanho e poder das maiores companhias de tecnologia — o que alguns insiders chamam de “techlash”3 â€” estĂĄ vindo mais forte do que nunca


Pense sobre todas os caminhos que as ferramentas digitais e companhias de tecnologia asseguraram para a modernidade e diversidade de informação durante a pandemia. Pense sobre todos os serviços online de streaming, videogames interativos, fornecedores de e-books, criadores de podcast e aplicativos que tĂȘm nos mantido entretidos. As diversas formas de serviços livres de chat que nos mantĂȘm em contato com amigos, famĂ­lia e colegas. As ferramentas de educação online que ajudam a fazer o homeschooling algo sustentĂĄvel. Pense sobre todas as doaçÔes feitas atravĂ©s de plataformas de crowdfunding , marketplaces como Etsy e eBAY e aplicativos que fazem parte da gig economy4, desde o Uber atĂ© o Patreon, que estĂŁo ajudando as pessoas a sobreviver.

É justo dizer que isso Ă© longe do ideal. Mas sem qualquer tecnologia disponĂ­vel hoje, poderia ser muito pior


Pense sobre o quanto [a resistĂȘncia contra os abusos da aplicação da lei] ainda teria ocorrido sem nĂŁo apenas smatphones e vĂ­deos, mas tambĂ©m maneiras rĂĄpidas, acessĂ­veis e livre de gatekeepers para compartilhar e espalhar tal vĂ­deo.

Perceba como, repetidamente, tanto ela quanto Eric Goldman tratam um grupo de coisas — “a internet, e as oportunidades que ela criou”, “uma corda vital, conectando americanos à comida, etc.”, “tecnologia”, “vídeos de streaming, videogames,etc.”, “smartphones e vídeo digital”, “a tecnologia de hoje” — como intercambiáveis com um grupo de coisas distinto — “grandes companhias de tecnologia”, “Big Tech”, “Vale do Silício”, “companhias de internet” e as “grandes companhias de tecnologia”.

É uma manobra escorregadia, astuta, caso nĂŁo preste atenção. Tais coisas nĂŁo sĂŁo intercambiĂĄveis, assim como uma moradia, roupas e eletrodomĂ©sticos nĂŁo eram intercambiĂĄveis com a indĂșstria estatal na URSS. Qualquer nĂșmero de diferentes arranjos institucionais sĂŁo maneiras viĂĄveis de entregar as mesmas funçÔes tĂ©cnicas bĂĄsicas. E em cada sociedade de classes, algum conjunto de arranjos institucionais Ă© selecionado. A escolha de tais arranjos reflete os interesses da classe dominante. Como Paul Good escreveu: “um sistema destrĂłi seus competidores antecipando os meios e canais, e entĂŁo prova que esse Ă© o Ășnico modo de operação concebĂ­vel.”

O fato de que os bens e serviços que consumimos vĂȘm de um conjunto particular de arranjos institucionais selecionados por nossa estrutura de poder atual — e de onde mais poderiam vir? — nĂŁo legitima tais arranjos.

Em “Anti-Tech Warriors Are Coming For Your Food Delivery Apps” (17 de agosto), Brown aplica o mesmo tipo de argumento para aplicativos de delivery.

Toneladas de consumidores e negĂłcios ao redor dos EUA usam e gostam dos aplicativos de delivery. Eles permitem que indivĂ­duos patrocinem restaurantes que, de outra forma, nĂŁo oferecem serviços de entrega; eles permitem que negĂłcios aumentem seu pĂșblico; eles fornecem condiçÔes flexĂ­veis de trabalho autĂŽnomo para os entregadores


NĂŁo Ă© surpreendente o fato de que os negĂłcios de alimento enraizados com pĂșblicos jĂĄ estabelecidos tendem a nĂŁo gostar de aplicativos de delivery. Eles nĂŁo gostam de fornecer parte do lucro para as empresas de aplicativos, nem de dar novas opçÔes de locais para comer aos seus consumidores. Eles (as empresas de apps) sĂŁo competidores e tĂȘm ganhado utilidade desde o começo da pandemia, com pessoas presas em casa e restaurantes frequentemente fechados para jantares presenciais.

As pessoas que querem acabar com os aplicativos de delivery nĂŁo dizem isso, Ă© claro. Eles dizem que os aplicativos estĂŁo “explorando restaurantes, trabalhadores e consumidores” e “tomando dinheiro da economia local”.

PorĂ©m, a campanha deles, “Protect Our Restaurants”, Ă© basicamente um lobby de compadrios que exigem que o governo intervenha, entĂŁo a classe favorecida de negĂłcios pode fazer mais dinheiro sem melhorar os serviços. Temos visto cruzadas similares nos jornais, hotĂ©is, e outras indĂșstrias cujo antigo modelo de negĂłcios tem sido minado pela internet



A solução deles normalmente envolvem grande regulação governamental.

Ao decorrer dessa passagem, toda a linguagem positiva e libertadora — os benefĂ­cios que os aplicativos “permitem”, “fornecem”, etc. — Ă© atribuĂ­da aos grandiosos aplicativos beneficentes. E todas as frases negativas — “negĂłcios de alimentos enraizados”, “nĂŁo gostam” (repetidamente), “acabar”, “lobby de compadrios”, “classe favorecida de negĂłcios”, “antigo modelo de negĂłcios” — sĂŁo atribuĂ­das, por outro lado, aos seus oponentes. Se vocĂȘ se sentiu [manipulado] como se fosse tocado como uma rabeca, nĂŁo te culpo.

A artimanha do debate regulatĂłrio proposto por ela Ă© igualmente unilateral. Consistentemente sĂŁo os aplicativos que oferecem “liberdade” e “escolha”, e os caras maus — os “negĂłcios de alimento enraizados” que odeiam “competição” — sĂŁo quem clama por mais regulamentação.

Mas vamos esclarecer algumas coisas. Primeiramente, o modelo de lucro desses aplicativos —no qual Brown nunca menciona, Ă© integralmente derivado da propriedade das walled-gardens5 que estĂŁo em posse de corporaçÔes — dependendo inteiramente dos monopĂłlios de propriedade intelectual. E algo um tanto inconveniente para o joguinho moralista de Brown Ă© o fato de que a propriedade intelectual Ă© uma regulamentação governamental que suprime a competição.

Embora haja toda essa retĂłrica de libertação — “permite”, “fornece”, “ruptura”, “escolha”, “flexibilidade” — a mesma mĂŁo que tem o poder de afrouxar tambĂ©m tem o poder de amarrar. Delivery, tĂĄxi e o controle de monopĂłlios de outros aplicativos sobre plataformas proprietĂĄrias permite-lhes que estabeleçam as taxas que cobram de restaurantes, motoristas ou consumidores de forma unilateral. Aplicativos de delivery sĂŁo notĂłrios por enganar restaurantes e roubar a gorjeta de motoristas, assim sĂŁo como aplicativos de carona remunerada para reduzir o pagamento do motorista. Sem dĂșvidas que Brown diria que o mercado impĂ”e limites ao poder deles porque consumidores, motoristas ou restaurantes podem decidir que nĂŁo vale a pena; mas o poder de estabelecer preços em nĂ­veis de maximização de lucro baseado na utilidade para o consumidor, e estabelecer o preço a um nĂ­vel no qual mal valha o custo para a maioria das pessoas, Ă© a definição de preço monopolista.

A mentira de que os trabalhadores sĂŁo “empregados autĂŽnomos” Ă© insuficiente para uma folha de jornal. Como Cory Doctorow comenta no caso da Amazon Flex, Ă©

um sistema de entregas da “gig economy” que finge que os motoristas são contratados autînomos, mesmo que seus movimentos sejam roteirizados por um aplicativo cujo controle sobre eles excede o de qualquer chefe na história.

Assim como todo trabalho da gig economy, o chiado do “trabalhador autĂŽnomo” Ă© apenas um truque para alterar os riscos e custos de ser um empregador para a força de trabalho sem qualquer independĂȘncia que os verdadeiros freelancers usufruem.

Os motoristas da Amazon Flex sĂŁo uma força de trabalho de “frangalhos” cujo pagamento Ă© determinado por um algoritmo de uma caixa preta ajustado para mantĂȘ-los Ă  beira da ruĂ­na financeira (Ă© por isso que os motoristas da Flex começaram a ESCONDER SEUS TELEFONES EM ÁRVORES):

Para ser franco, se uma corporação Ă© dona do aplicativo que vocĂȘ “contrata” o seu trabalho e tem o poder de definir unilateralmente o seu salĂĄrio ou te demitir, entĂŁo ela Ă© o seu patrĂŁo. Qualquer um que diga o contrĂĄrio Ă© um maldito cĂșmplice.

Apesar do foco manipulativo de Brown que consiste no “favoritismo”, “encarregados” vs “disruptores”, o fato Ă© que os novos aplicativos proprietĂĄrios — o que genuĂ­nos defensores de uma economia de compartilhamento chamam de “plataformas da Estrela da Morte” — precisam, eles mesmos, serem rompidos. O monopĂłlio deles, baseados em IP, Ă©, em cada parte, uma forma de protecionismo imposto pelo governo como nenhum sistema de medalhĂŁo de tĂĄxi jamais sonhou em ser.

Tratar os benefĂ­cios que nĂłs recebemos da tecnologia como razĂŁo para ser grato Ă s empresas de tecnologia Ă© comparĂĄvel a dizer que pelo fato dos camponeses medievais precisarem de terra para o cultivo e se beneficiarem do acesso Ă  terra, entĂŁo eles deveriam ser gratos aos lordes feudais. VocĂȘ quase pode ver Brown saindo para fora de um poço e dizendo, sarcasticamente: “ E ainda assim vocĂȘ usa os produtos das empresas de tecnologia. Que curioso!”

Os consumidores tĂȘm que pagar tributo Ă  Big Tech para ganhar os benefĂ­cios da tecnologia pelo mesmo motivo que os camponeses tinham que lidar com os lordes feudais para obter o acesso aos benefĂ­cios da terra: empresas de tecnologia possuem um monopĂłlio legal que lhes permite o controle ao acesso dos benefĂ­cios da tecnologia, graças aos direitos artificiais de propriedade garantidos pelo Estado. Empresas de tecnologia nĂŁo precisam ser guiadas com rĂ©deas pela “regulação governamental”, nĂŁo mais que os lordes feudais. A base de seu poder Ă© a regulação governamental.

Podemos quebrar o poder deles, revogando ou evitando as leis de propriedade intelectual — regulaçÔes governamentais — que sĂŁo as bases deste poder.

Uma maneira de fazer isso Ă© atravĂ©s do que Doctorow chama de “interoperabilidade adversĂĄria”. Em termos simples, interoperabilidade adversĂĄria significa a remoção das proteçÔes de propriedade intelectual dos cĂłdigos e protocolos de aplicativos proprietĂĄrios e proteçÔes de segredo comercial para o cĂłdigo-fonte junto com outras barreiras legais para aplicativos open-source se conectarem a eles sem permissĂŁo.

Uma excitante possibilidade Ă© criar uma defesa legal absoluta para empresas que fazem produtos “interoperĂĄveis” que conectam-se Ă s ofertas das empresas dominantes, desde tinta de impressora de terceiros a leitores nĂŁo autorizados do Facebook que engolem todas as mensagens esperando por vocĂȘ e as filtram de acordo com suas especificaçÔes, nĂŁo as de Mark Zuckerberg. Essa defesa de interoperabilidade teria que proteger os ferreiros de ferramentas digitais de todos os tipos de reivindicaçÔes: interferĂȘncia ilĂ­cita, contornar bloqueios de direitos autorais, violação de patente e, Ă© claro, violação de termos de serviço.

No caso de plataformas de mĂ­dia social irresponsĂĄveis, como Twitter e Facebook, isso significaria permitir que qualquer instĂąncia de cĂłdigo aberto governada pelo usuĂĄrio pegasse carona na plataforma do Twitter e/ou Facebook, importando listas de contatos e fazendo postagens multiplataforma, sem qualquer necessidade de permissĂŁo de Jack Dorsey ou Mark Zuckerberg.

Alternativas ao Facebook como a Diaspora poderiam usar os logins e senhas dos usuĂĄrios para buscar mensagens do Facebook que o serviço havia posto na fila para eles, permitindo a esses usuĂĄrios responderem as mensagens da Diaspora sem serem espionados pelo Facebook. Os usuĂĄrios de Mastodon poderiam ler e postar no Twitter sem tocarem nos servidores do Twitter. Centenas ou milhares de serviços poderiam surgir, permitindo ao usuĂĄrios diferentes opçÔes para bloquear o assĂ©dio e oferecer contribuiçÔes interessantes de outros usuĂĄrios — tanto os serviços de mĂ­dia sociais existentes quanto os usuĂĄrios dessas alternativas.

EntĂŁo, ao invĂ©s das pessoas descontentes irem a uma instĂąncia num Fediverso com menos de 1% dos vĂĄrios usuĂĄrios do Twitter, eles poderiam, efetivamente, tornar o prĂłprio Twitter numa plataforma aberta como o Fediverso e reter todos os efeitos de rede do acesso a base de usuĂĄrios do Twitter.

A vantagem do Facebook estĂĄ nos “efeitos de rede”: uma ideia Ă© que o Facebook aumenta em valor com cada usuĂĄrio que se junta (porque mais usuĂĄrios aumentam a chance de que a pessoa que vocĂȘ estĂĄ procurando esteja no Facebook). Mas a interoperabilidade adversĂĄria poderia permitir que os novos participantes no mercado se apropriem desses efeitos de rede, fazendo com que os usuĂĄrios mantenham o contato com amigos no Facebook mesmo que eles tenham saĂ­do do Facebook.

No caso especĂ­fico do que chamamos falsamente de aplicativos de “carona remunerada”, Doctorow explica como a interoperabilidade adversĂĄria poderia facilitar a genuĂ­na carona remunerada, de verdade:

Suponha que haja um aplicativo desestabilizador que desestabilizaria os desestabilizadores.

Imagine que eu poderia instalar uma versĂŁo do Ride (chame isso de Meta-Uber) que saberia sobre todas as cooperaçÔes de transporte no mundo. Quando chegasse, pagaria um Uber ou Lyft, mas uma vez que o motorista tenha aceitado a corrida, o meu aplicativo Meta-Uber poderia mandar um sinal ao celular do motorista e perguntar: “vocĂȘ possui um aplicativo cooperativo de transporte no seu celular?”. Caso tanto o motorista quanto eu tenhamos o aplicativo, nossos aplicativos iriam cancelar a reserva do Uber e remarcar o trajeto com o Meta-Uber.

Dessa forma, poderíamos pegar carona na base estabelecida de carros do Uber e Lyft, os bilhÔes que eles investiram para legalizar os serviços de transporte compartilhado ao redor do mundo, os bilhÔes que gastaram em marketing para fazer com que nos acostumemos com a ideia de serviços de transporte compartilhado.

Esse serviço do Meta-Uber permitiria uma transição elegante de proprietĂĄrios e acionistas para cooperativas de trabalhadores. Quando vocĂȘ precisasse de um carro, conseguiria sem ter que resolver o problema do ovo e da galinha da falta de motoristas, pois se nĂŁo hĂĄ passageiros, entĂŁo nĂŁo hĂĄ motoristas. Uma tarifa por vez e poderĂ­amos canibalizar Lyft e Uber e enviĂĄ-los para o abrigo.

Os bilhĂ”es que eles gastaram para estabelecer as “vantagens do pioneiro” nĂŁo seriam uma muralha intransponĂ­vel em torno de seus negĂłcios: seriam pesos de pedra ao redor de seus pescoços. Lyft e Uber teriam excedentes de capital de vĂĄrios bilhĂ”es de dĂłlares que seus investidores esperariam recuperar, enquanto as cooperativas que agilmente saltam sobre Uber e Lyft nĂŁo teriam tal fardo.

Seriamos capazes disso?

Sim. Tecnicamente, isso nĂŁo Ă© tĂŁo desafiador. Crie um serviço onde os dispositivos de motoristas e passageiros registram cĂłdigos exclusivos por viagem, ter o Meta-Uber para checar se o aparelho do motorista lançou um cĂłdigo exclusivo que corresponda ao seu, e entĂŁo usar a ferramenta de cancelamento da viagem que jĂĄ Ă© incorporada ao Uber e Lyft para derrubar o antigo registro e recria-lo com o Meta-Uber


HĂĄ centenas de outros metas que podemos imaginar: uma Meta-Amazon que faz seu pedido no lugar mais prĂłximo; uma Meta-OpenTable que redireciona seus registros Ă  uma ferramenta cooperativa.

Cada uma dessas cooperativas seria capaz de desestabilizar o monopólio digital que veio ao poder pregando o evangelho da instabilidade [i.e. o que os monopolistas digitais como Brown e outros no Reason devotam tanto interesse para defender — K.C.].

Cada um desses monopolistas digitais mudariam para um balido ofensivo de um predador atĂŽnito e confuso, rosnando impotentemente enquanto sua carne Ă© dilacerada por milhares de pequenas mordidas de enxames de alta mobilidade, sucessores altamente evoluĂ­dos.

A real barreira não é técnica; é legal, como ele continua a descrever:

A lei tecnolĂłgica Ă© um campo minado com regras excessivamente amplas que foram sistematicamente distorcidas por empresas que usaram a “interrupção” para abrir caminho para as antigas indĂșstrias, mas agora usam essas leis para se proteger de qualquer pressĂŁo de iniciantes que tentam interrompĂȘ-las.

A primeira Ă© a Lei de Fraude e Abuso de Computador
. CFAA Ă© nominalmente um estatuto anti-intrusĂŁo de computador, que criminaliza “exceder sua autorização” em um computador que nĂŁo pertence a vocĂȘ. Mesmo quando se passaram mais de 40 anos, estudiosos e praticantes tecnologicamente informados [sic] advertiram que isso era definido de forma muito ampla e que algum dia poderĂ­amos ver essa regra usada para criminalizar atividades normais envolvendo computadores que possuĂ­amos, porque o os computadores teriam que se comunicar com um servidor para realizar parte de seu trabalho, e o proprietĂĄrio do servidor poderia usar “contratos de usuĂĄrio” e “termos de serviço” onerosos para definir nossa autorização. Se isso se generalizar, essas licenças podem adquirir força de lei criminal e violĂĄ-las pode se tornar um crime jurĂ­dico.

40 anos depois, esses medos são justificados: CFAA é usada para ameaçar, intimidar, processar e até mesmo prender pessoas envolvidas em atividades perfeitamente legais, apenas porque violaram algum termo de serviço no meio do caminho.

A metĂĄstase dos termos de serviço em extensas novelas de impenetrĂĄvel juridiquĂȘs criou um mundo onde qualquer coisa que vocĂȘ fizer para frustrar as ambiçÔes comerciais dos monopolistas digitais Ă© uma potencial ofensa criminal.

Depois, hĂĄ a Seção 1201 do Digital Millennium Copyright Act de 1998, um projeto de lei de Bill Clinton que cria um crime por “contornar um meio eficaz de controle de acesso” (tambĂ©m conhecido como Digital Rights Management ou DRM) para obras protegidas por direitos autorais


Juntos, a CFAA e DMCA deram Ă s empresas digitais acesso a uma obscura doutrina jurĂ­dica que nunca foi escrita pelo Congresso, mas Ă© rotineiramente aplicada pelos tribunais: Desprezo criminoso do modelo de negĂłcios.

A CFAA e a DMCA 1201 foram cuidadosamente distorcidas em escudos defensivos e anti-interrupção que estão disponíveis apenas para empresas digitais. Os proprietårios de medalhÔes de tåxi não podem usar a CFAA e a DMCA 1201 para manter o Uber e o Lyft fora de suas cidades.

Mas o Uber e o Lyft poderiam usar essas ferramentas legais para manter o Meta-Uber fora de seus resultados financeiros. O Uber e o Lyft tĂȘm longos termos de serviço que estabelecem as regras sob as quais vocĂȘ estĂĄ autorizado a se comunicar com os servidores do Uber e do Lyft. Estes termos de serviço proĂ­bem o uso de seus servidores para localizar motoristas para qualquer finalidade que nĂŁo seja a reserva de uma viagem. Eles certamente nĂŁo permitem que vocĂȘ localize um motorista e, em seguida, cancele a reserva e faça uma nova reserva com um aplicativo cooperativo.

E os aplicativos do Uber e do Lyft sĂŁo criptografados em seu telefone, entĂŁo, para fazer engenharia reversa, vocĂȘ teria que descriptografĂĄ-los (provavelmente capturando uma imagem de seu cĂłdigo descriptografado enquanto estava sendo executado em um telefone virtual simulado em um computador desktop). Descriptografar um aplicativo sem permissĂŁo Ă© “ignorar um meio eficaz de controle de acesso” para um trabalho protegido por direitos autorais (o aplicativo Ă© composto de um cĂłdigo protegido por direitos autorais).

O Uber e o Lyft podem usar o DMCA 1201 para impedi-lo de descobrir como usĂĄ-los para localizar motoristas cooperativos e podem usar o CFAA para te impedir de mudar sua reserva do Uber para o Meta-Uber.

E essas mesmas barreiras legais — novamente, o protecionismo e as regulaçÔes governamentais â€” sĂŁo o coração do modelo de negĂłcios dos proprietĂĄrios de aplicativos em geral.

Então, resumindo, praticamente cada componente singular do enquadramento manipulativo de Davi vs Golias feito por Brown é falso. A Big Tech é inveterada e nepotista, e utiliza regulaçÔes governamentais para suprimir a ruptura. Restaurantes, motoristas, consumidores e outros usuårios das plataformas da Estrela da Morte de todos os tipo precisam expropriar a propriedade intelectual deles, quebrar os monopólios e dizer aos seus defensores para irem ao inferno.


1. Matt Bors Ă© um cartunista editorial norte-americano e editor da publicação de quadrinhos on-line The Nib. Os quadrinhos que ironizam o senso comum da direita foram reunidos e publicados no livro “We should improve society somewhat”. (N. do T.)

2. Elizabeth Nolan Brown Ă© a editoria sĂȘnior no site Reason, onde ela escreve regularmente sobre intersecçÔes do sexo, discurso, tecnologia, crime, polĂ­tica, panico e liberdades civis. Ela tambĂ©m Ă© co-fundadora do grupo de feministas “libertĂĄrias”, Feminists for Liberty. (N. do T.)

3. Techlash, acrĂŽnimo formado a partir das palavras techonology e backlash (forte reação negativa a questĂ”es sociais ou polĂ­ticas) Ă© o termo que define a animosidade pĂșblica em relação Ă s grandes empresas de tecnologia, especialmente as do Vale do SilĂ­cio. De acordo com o Oxford English Dictionary, o fenĂŽmeno techlash Ă© “uma forte e generalizada reação negativa ao poder e influĂȘncia de grandes empresas de tecnologia, particularmente aquelas baseadas no Vale do SilĂ­cio.” (N. do T.)

4. A gig economy Ă© uma forma de economia “alternativa” que consiste em freelancers e trabalhadores autĂŽnomos, informais (como no caso do Uber, Amazon Flex, Lyft, Rappi e o IFood). (N. do T.)

5. Walled Garden é um termo em telecomunicaçÔes e marketing que define um ambiente fechado que limita as informaçÔes e coleta os dados dos usuårios, ou seja, todas as operaçÔes desse ecossistema são controladas pelo operador.

Essa pråtica tem como objetivo manter o usuårio dentro de determinada plataforma a fim de coletar dados e lucrar com a publicidade. As grandes empresas de tecnologia como Facebook, Apple, Amazon e Google usam essa técnica. (N. do T.)




Source: C4ss.org