July 24, 2021
From Center For Stateless Society
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De Sean Swain. Artigo original: Security Threat Groups: The Industry of Gangs, 12 de abril de 2021. Traduzido para o portuguĂȘs por Gabriel Serpa.

Nas prisĂ”es de Ohio, quase todo mundo faz parte de uma organização criminosa, quer sejam membros de uma ou nĂŁo. Se vocĂȘ for um prisioneiro de Ohio e nĂŁo fizer parte de uma gangue, os administradores da prisĂŁo irĂŁo colocĂĄ-lo em uma. E se nĂŁo houver, eles criarĂŁo uma nova.

A razĂŁo para isso Ă© que se trata de um esquema de concessĂŁo de subsĂ­dios federais. Eis a forma como funciona:

O Departamento de Justiça dos EUA mantĂ©m uma espĂ©cie de sistema de dados para aquilo que chama de Grupos de Ameaça Ă  Segurança (sigla em inglĂȘs STG), que nĂŁo deve ser confundido com DST (STD em inglĂȘs). O Departamento de Justiça nĂŁo monitora clamĂ­dia ou gonorreia, atĂ© onde eu sei.

O que Ă© certamente monitorado, os tais STGs, inclui organizaçÔes como os Bloods, os Crips, os Gangster Disciples, a Irmandade Ariana, etc. Esses sĂŁo os maiores grupos, reconhecidos como Grupos de Ameaça Ă  Segurança.

Assim, para monitorĂĄ-los, o Departamento de Justiça dos EUA concede aquilo que chama de subsĂ­dios em bloco aos estados. Estados-membros que, tal como Ohio, participam do programa de monitoramento de STGs, mantĂȘm uma base de dados os quais compartilham com o Departamento de Justiça, com documentos dos membros das gangues, bem como suas atividades. Para cada membro que o estado registra, o Departamento de Justiça repassa-lhe uma quantia em dinheiro.

Quanto mais membros de organizaçÔes criminosas são registrados, mais dinheiro o sistema prisional de um determinado estado recebe.

Nos anos 90, havia não mais do que um punhado de Grupos de Ameaças à Segurança. E cada uma dessas organizaçÔes tinha não mais do que um punhado de membros facilmente identificåveis. Em cada prisão havia um investigador cujo trabalho era principalmente cuidar dos arquivos dessas gangues.

Desde entĂŁo, com a oferta de subsĂ­dios federais, temos agora centenas de STGs, alguns deles com apenas dois ou trĂȘs membros, todos registados no sistema de dados. Aparentemente, temos dezenas de milhares de membros de gangues lotando as prisĂ”es de Ohio. E temos nĂŁo um, mas dois investigadores de tempo integral em cada prisĂŁo neste estado, com salĂĄrios subsidiados; suas despesas sĂŁo cobertas por mais subsĂ­dios; seu equipamento para que faça seu trabalho tambĂ©m Ă© subsidiado.

O crime organizado Ă© uma indĂșstria.

Conheço detentos que foram rotulados como membros de gangues, simplesmente por terem crescido numa determinada ĂĄrea na qual a maioria dos jovens se junta a um determinado grupo; ou por receberem correspondĂȘncias nĂŁo solicitadas de uma organização que sequer estĂĄ listada como uma gangue. Um amigo meu, judeu, foi por anos, secretamente, membro de um bando dos Panteras Negras, sem razĂŁo e sem sequer saber.

Todos devem se lembrar que eu fui classificado, em 2012, como lĂ­der do ExĂ©rcito dos 12 Macacos â€” uma organização sem organização —, com base no fato de a minha ideologia coincidir com a deles. Assim, ao imaginar um mundo sem lĂ­deres, tornei-me lĂ­der de uma organização que sequer conta com uma organização.

Nada disso causa espanto para os que mantém os registos.

Em tudo, sĂŁo os prĂłprios investigadores — que sĂŁo recompensados com estabilidade no emprego pela existĂȘncia de gangues e de seus membros — que validam as organizaçÔes criminosas e seus partĂ­cipes. Ou seja, os investigadores decidem o que Ă© um STG e decidem quais as organizaçÔes que se enquadram nessa definição. Depois, decidem ainda o que significa pertencer ao grupo e o que constitui a prova para tal.

Algumas religiĂ”es tĂȘm sido classificadas como STGs. Alguns internos chegaram a ser qualificados como membros por associação ao detento com quem dividiam cela. Assim, cumprimentar o interno que foi transferido para o seu cubĂ­culo poderia fazer de vocĂȘ um membro do bando ao qual ele pertence
 que poderia vir a ser Os Presbiterianos, caso o investigador prisional se revelasse um batista radical do Sul.

Essencialmente, o sistema de dados do Security Threat Group é como uma caixa registadora: cada vez que um investigador prisional bate no teclado, uma nova identificação sai.

Os aparelhos dentĂĄrios dos filhos deles — bem como a educação universitĂĄria que terĂŁo — dependem destes investigadores que, constantemente, expandem o nĂșmero de gangues e membros a ser vigiados, por isso as organizaçÔes criminosas se proliferam
 ainda que factualmente nĂŁo o façam. E lembrem-se de que esses rĂłtulos nĂŁo serĂŁo apagados uma vez que os prisioneiros sejam libertados. NĂŁo mesmo. Trata-se de uma base federal de dados. Assim, se lhe classificarem na prisĂŁo como o Grande Pooh-Bah do Bando das Bananas, quer ele exista ou nĂŁo, quando vocĂȘ sair, o polĂ­cia local que o abordar pode puxar o nĂșmero da sua placa e receber o alerta de que vocĂȘ provavelmente estĂĄ armado e Ă© perigoso. Ou o seu sobrinho, adolescente, que pediu seu carro emprestado para levar a namorada ao cinema, pode encontrar-se rodeado por equipes da SWAT por causa de um simples farol traseiro queimado.

Recentemente, os Juggalos processaram o Departamento de Justiça, quando este se recusou a removĂȘ-los de sua base de dados para STGs. Caso nĂŁo saibam, os Juggalos sĂŁo os fĂŁs de um grupo de rap, chamadoInsane Clown Posse. Os Juggalos geralmente se vestem como palhaços e bebem refrigerantes da Faygo. Isso Ă© coisa deles. Mas, segundo os investigadores prisionais, sua propensĂŁo a ouvir a mesma mĂșsica e desfrutar das mesmas bebidas — e aparentemente partilhar a mesma subcultura — faz deles um grupo que pĂ”e em risco a segurança.

Essa ação judicial estå atualmente pendente. Porém, faça o que fizer, não deixe que os investigadores escapem da prisão, caso gostem das bebidas Faygo.

Este Ă© o prisioneiro anarquista Sean Swain, do Sistema Correcional Warren, no LĂ­bano, Ohio. Se vocĂȘ estiver no sistema de dados, vocĂȘ Ă© a resistĂȘncia!

Sean Swain A243-205




Source: C4ss.org