January 17, 2021
From Center For Stateless Society
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De Nathan Goodman. Original: Does Anarchism Conflict With Human Nature? 24 de outubro 2013. Traduzido para o portuguĂȘs por Gabriel Serpa.

Sei o suficiente sobre a natureza humana para saber que isso [o anarquismo] Ă© um conceito ingenuamente falho.

A anarquia Ă© uma bela ideia, mas entra em conflito com a natureza humana.

Os anarquistas estão acostumados a ouvir tais objeçÔes a todo momento. Parece haver um consenso de que uma sociedade sem estado, erigida sobre os princípios da esquerda libertåria, é incompatível com a natureza humana. Mas serå que isso é verdadeiro?

Penso que se a natureza humana existe, nĂłs discernimos sobre ela atravĂ©s de pesquisas psicolĂłgicas, antropolĂłgicas, histĂłricas e econĂŽmicas. Sendo assim, o que algumas pesquisas nessas ĂĄreas tĂȘm a nos dizer a respeito dos estados — e das sociedades sem estado?

Pesquisas antropolĂłgicas e histĂłricas confirmam a existĂȘncia de sociedades estĂĄveis, sem nada que se possa denominar estados. James C. Scott documenta algumas delas no Sudeste AsiĂĄtico, no seu livro The Art of Not Being Governed. HĂĄ tambĂ©m evidĂȘncias de uma sociedade efetivamente sem estado que existiu sob leis policĂȘntricas funcionais, por um perĂ­odo prolongado, na IslĂąndia.

Que tal agora uma pesquisa no campo psicolĂłgico? ExperiĂȘncias em psicologia social, como aquelas de Milgram e Zimbardo, mostram que hierarquia e autoridade — que sĂŁo, essencialmente, intrĂ­nsecas aos estados — criam fortes incentivos ao abuso de poder. A psicĂłloga Sharon Presley resume algumas pesquisas sobre obediĂȘncia e autoridade em seu artigo The Present and Future of Obedience to Unjust Authority.

E quanto Ă  economia? Elinor Ostrom utilizou tanto modelos da teoria dos jogos quanto uma extensa pesquisa empĂ­rica para mostrar que instituiçÔes sociais participativas, descentralizadas, e de base podem efetivamente administrar e gerir recursos comuns, sem qualquer regulamentação estatal. Embora a prĂłpria Ostrom nĂŁo fosse uma anarquista, sua pesquisa demonstra as possibilidades vigorosas de autogoverno, e ilumina como a organização descentralizada e voluntĂĄria pode construir uma ação coletiva sem os problemas de informação que afetam os estados. A pesquisa econĂŽmica que reforça o argumento do anarquismo nĂŁo se limita, porĂ©m, ao trabalho de Ostrom. No que tange aos estados, por exemplo, a teoria da escolha pĂșblica parte de suposiçÔes bastante razoĂĄveis de que a economia dominante se aproveita da natureza humana; e mostra que os estados muitas vezes vĂȘm com incentivos perversos — inatos — que os levarĂŁo a se comportar de forma destrutiva e irresponsĂĄvel.

Portanto, se olharmos a natureza humana atravĂ©s das lentes das ciĂȘncias sociais, nĂŁo Ă© nada Ăłbvio que ela seja uma força contrĂĄria ao anarquismo. Com efeito, ela pode fornecer um fortĂ­ssimo argumento em favor dele.




Source: C4ss.org